quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Entrevista a: Bailão


João Fílipe de Oliveira Antunes, conhecido no mundo do futebol por Bailão, nasceu em Arrentela a 2 de Janeiro de 1988.
Aos sete anos já jogava nos escalões de formação do Seixal, transitando depois para o Vitória de Setúbal onde esteve durante dez temporadas.
A sua subida ao escalão sénior coincidiu com a extinção da equipa B vitoriana, e Bailão viu-se "obrigado" a dar seguimento à sua carreira no Palmelense, que na altura competia nos Distritais de Setúbal.
Uma época no Palmelense, foi o "suficiente" para conseguir uma oportunidade nos Nacionais, assinando pelo histórico Fabril do Barreiro (ex CUF).
Apesar de uma boa temporada na III Divisão, o jogador acabou por rumar ao Zambujalense, regressando aos Distritais de Setúbal em 09/10. A meio da temporada, mudou-se para o Alfarim, clube onde ainda se mantém.
A nível internacional, chegou à selecção portuguesa de sub-18, além de ter conquistado vários torneios pela Associação de Setúbal.
É um jogador polivalente, podendo actuar com avançado centro, extremo esquerdo ou...defesa esquerdo!

ConversasRedondas (CR): O Bailão começou a jogar futebol com sete anos no Seixal. A que se deveu este ingresso no “desporto-rei” de forma tão “precoce”?
João Bailão (JB): Eu cresci num meio onde ainda predominava o futebol de rua, na Arrentela, e desde muito pequeno comecei a jogar futebol na rua. Fui para o Seixal influenciado pelo meu pai que foi lá profissional e comecei como federado logo aos sete anos. Naquela altura havia apenas o escalão de Escolas até aos onze anos.


CR: Depois de duas temporadas no Seixal, ingressou no V. Setúbal. Decidiu comparecer aos treinos de captações nos “sadinos” ou estes é que entraram em contacto consigo?
JB: Soube por um amigo que havia captações no Vitória, e o meu pai levou-me lá. O mister Herculano Santos, antiga glória do clube, disse que se recordava de mim do Seixal, e tive a felicidade de ficar logo no final do primeiro treino.

CR: Passou dez temporadas na formação do Vitória, onde foi sempre uma das “estrelas, marcando golos e fazendo várias assistências. O que “falhou” para não ser opção enquanto sénior?
JB: Não era nenhuma estrela, mas foram dez anos maravilhosos, onde fiz cerca de cento e cinquenta golos em jogos oficiais e cheguei a capitão e sub-capitão. Cresci ali, ganhei títulos, disputei fases finais, andei pelo estrangeiro em torneios…Acabei por nunca ter uma oportunidade enquanto sénior no Vitória, apesar de algumas promessas que me foram sendo feitas. Na verdade, penso que o facto de haver equipa B enquanto eu era júnior acabou por me tirar visibilidade a mim e aos meus colegas pois quando nós éramos juniores, quem era chamado para a equipa principal eram os jogadores que se destacavam da equipa B e não os dos juniores.


CR: O desaparecimento da equipa B, foi um dos motivos que o levaram a terminar o vínculo com o Setúbal?
JB: Depois, quando eu precisava que houvesse equipa B, ela acabou. Ou seja houve equipa B de seniores nos dois anos em que eu fui júnior e acabou no ano em que subi a sénior. É como se tivessem colocado mais um "degrau" quando eu era júnior e quando subi a sénior precisava desse "degrau" e tiraram-no. Foi-me dito por responsáveis do clube na altura, que ainda não se sabia se iria continuar a existir equipa B, mas que se houvesse eu ficaria lá. Mas acabou mesmo, reuniram-se então comigo, disseram que tinham óptimos relatórios dos meus treinadores mas que não iam ficar comigo e que o Vitória não tinha capacidade para assinar com jogadores e empresta-los. Agradeceram os dez anos lá passados e desejaram-me sorte.

CR: De nada terá valido o facto de se ter treinado com a equipa B, chegando mesmo a ser convocado para alguns jogos da equipa que disputava a III Divisão Nacional...
JB: Na primeira época de júnior treinei-me várias vezes pela equipa B, e na época seguinte fui convocado. Nem o facto de ter chegado à selecção nacional de sub-18 ou título nacional de inter-associações valeram de nada. Da minha equipa de Juniores acabou por ficar apenas o Luís Portela, que era internacional mas que acabaram por dispensa-lo também seis meses depois. Enfim.

CR: Depois de terminado o ciclo no Vitória, rumou ao Palmelense, equipa que disputava a I Divisão Distrital de Setúbal. Porquê esta opção? Recebeu convites de clubes que disputavam os Nacionais?
JB: Assim que saí do Vitória tive a possibilidade de ir para uma equipa dos Açores, para a II Divisão B. Mas havia também a possibilidade de fazer a pré-época no Pinhalnovense, como estava na faculdade em Setúbal e tinha parado no meu último ano de Júnior não quis ir para os Açores e arrisquei no Pinhalnovense. Estive várias semanas com eles, correu-me muito bem, fiz vários jogos, inclusive a titular, e até contra equipas da I Liga. Segundo o que me foi dito, o mister António Pereira, actualmente no Atlético, quis ficar comigo mas a direcção não quis. Houve ali uns dias de impasse. Enfim, acabei por não perceber bem o que se passou. Acontece que já estávamos a meio de Agosto e todos os plantéis dos Nacionais estavam fechados, recebi aí alguns convites dos distritais e acabei por ir para Palmela, onde estava o Mister Paulo Cardoso que tinha sido meu treinador na Selecção de Setúbal.

CR: Para um jogador que estava habituado a disputar os campeonatos nacionais nas camadas jovens, quais foram as primeiras dificuldades encontradas na Distrital, tendo em conta que era o escalão sénior?
JB: As condições de treino eram óptimas, era um futebol muito mais físico e os jogadores muito mais experientes e fortes fisicamente. Tinha um grupo de jogadores já com alguns anos de distrital e surpreendeu-me o facto de haver tanta qualidade ali. No fundo, o que muda é a mentalidade, a forma como se encaram os treinos e vida futebolística em si. As expectativas, as prioridades...

CR: O facto de disputar um campeonato distrital, e de a partida ter menos “visibilidade” em relação aos Nacionais, não o desmotivou?
JB: Confesso que foi um choque para mim na altura. Não foi fácil em poucos meses passar da expectativa de jogar na I Liga para jogar no Distrital. Fiquei desmotivado, claro. Muito. Sobretudo na primeira metade da época. Em Dezembro era para ter saído para o GD Fabril, e a partir daí as coisas mudaram, foi o "clique" que eu precisava.

CR: O Palmelense segurou a manutenção, e o Bailão participou em grande parte dos jogos realizados pelo clube. Deu-se bem na sua primeira temporada como sénior?
JB: Felizmente tive um treinador que sempre acreditou em mim, fiz todos os jogos em que estive disponível e quase todos enquanto titular. Marquei dois golos. Foi uma temporada muito importante pela experiência que adquiri com os jogos e com os jogadores mais velhos, que já tinham passado por escalões acima e com muitos anos de sénior, Bruno Pombo, Rui Carvalho, entre outros. Percebi que o futebol sénior era bem diferente do que estava habituado até aí.

CR: As exibições que realizou, abriram-lhe as portas dos Nacionais, neste caso de um histórico: Fabril (ex CUF). Vestir a camisola verde e branca, ainda tem uma responsabilidade acrescida?
JB: Na verdade tem, é um clube bem diferente de todos os outros, com características muito próprias. Já para não falar das condições de trabalho que o clube oferece, ao nível da I Liga.

CR: Não começou a época como titular, mas aos poucos foi tendo as suas oportunidades. Sentiu dificuldades para se adaptar a uma competição sénior a nível nacional?
JB: A equipa era muito forte, tinha muitos bons jogadores e comecei por não jogar. Fui muito ajudado por alguns jogadores que foram importantes para alavancar a minha confiança, jogadores mais experientes como o Fusco, o David Martins que era capitão, e outros. Aos poucos fui ganhando o meu espaço, a partir do momento em que comecei a jogar, joguei sempre. Fiz vinte e tal jogos durante a temporada.

CR: Depois da estreia em campeonatos nacionais, esperava continuar no mesmo escalão na temporada 2008/2009?
JB: A época correu-me bem a nível individual. Infelizmente, houve muita turbulência à volta da equipa, muitos jogadores dispensados durante a época, cinco treinadores, entre eles o próprio presidente. Apesar disso, fui opção com todos eles. Esperava continuar. Como não continuei no GD Fabril, e terminada que estava a minha licenciatura, decidi ir tirar o Mestrado em Marketing Desportivo, cujas aulas eram às Sextas à noite. O facto de não treinar à Sexta foi impeditivo para clubes maior nomeada. Fui para o Zambujalense, onde fui muito bem recebido por todos.

CR: Regressou aos Distritais de Setúbal, desta feita para representar o Zambujalense. Em relação à temporada 2007/2008, quais foram as diferenças que encontrou entre ambos os campeonatos?
JB: Não encontrei grandes diferenças, as equipas pareceram-me um pouco mais fortes do que dois anos antes. Talvez o campeonato me tenha parecido mais competitivo.


CR: A meio da temporada, deixou o Zambujalense para reforçar o Alfarim. A que se deveu esta mudança?
JB: Por salários em atraso. Nem um mês cheguei a receber desde Agosto até Dezembro. Infelizmente é uma situação cada vez mais comum sobretudo no futebol amador.


CR: No Alfarim, fez mais dois jogos dos que havia feito no Zambujal, mas ainda assim marcou menos um golo. O clube alcançou o 6º lugar, fazendo assim um campeonato tranquilo. Era este o objectivo dos responsáveis?
JB: Mudei-me à 14ª jornada, e sai do 5º classificado para o penúltimo. Encontrei uma equipa com uma qualidade muito acima da média para o distrital, que não coincidia com a classificação, mas em baixo psicologicamente. Tive a felicidade de ser opção desde o princípio. Houve mudança de treinador passados dois jogos e a equipa despertou, fizemos uma segunda volta brilhante e acabámos no topo da tabela.


CR: Para a presente temporada, o Bailão renovou com o Alfarim. Como lhe está a correr a temporada?
JB: Felizmente, está a correr bem. Fiz todos os jogos até agora, marquei dois golos e fiz várias assistências. Penso que está a ser muito positiva.


CR: O Alfarim ocupa o 3º lugar com 26 pontos, estando a quatro do líder, Vasco da Gama. Os objectivos do clube, passam pela subida de divisão?
JB: Tenho a noção de que somos um 'outsider', não pela equipa mas pelo peso que o clube tem. Começamos a incomodar muita gente. Não perdemos à nove jornadas, somos o melhor ataque, e na próxima jornada recebemos o Vasco da Gama. Há duas jornadas atrás travámos o, até então, líder Olímpico do Montijo, empatámos 0-0 e eles festejaram o empate no fim tal foi o sufoco. Falta-me ver jogar o Vasco da Gama jogar e, até agora, não vi nenhuma equipa praticar melhor futebol que a nossa, por isso temos que ambicionar o 1º lugar.


CR: E apesar da época estar a meio, quais os objectivos do Bailão, para o que resta da temporada?
JB: Espero continuar a ser sempre opção, e a ver se faço mais uns golinhos. Vamos pensar jogo a jogo e acreditar que depois de mostrar o nosso valor e ganhar cada um deles podemos chegar ao fim e surpreender.


CR: Pode a jogar a defesa esquerdo, extremo esquerdo e ponta de lança. Em que posição se sente melhor dentro de campo?
JB: Onde tenho mais prazer é a jogar como avançado, mas tenho noção que onde rendo mais é atrás do avançado ou a médio esquerdo.


CR: Cumpre a terceira temporada nos Distritais de Setúbal. Se tivesse que recomendar algum jogador  do seu campeonato, a um clube dos campeonatos profissionais, quem seria?
JB: Há por aí muito bom jogador no distrital, mas um jogador não recomendo, recomendo uma equipa, o Alfarim. Temos muitos jogadores que foram formados em clubes da I Liga, incluindo Benfica e Sporting. Três de nós já passámos pelas selecções jovens, temos muitos jogadores ainda muito novos que já estiveram na II Divisão B e III Divisão. Venham ver-nos jogar e avaliem. Não tenho dúvidas de que muitos colegas meus singravam duas ou três divisões acima.
Questões Rápidas.

CR: João Fílipe de Oliveira Antunes. Como surgiu o nome Bailão?
JB: Vem do meu bisavô. Supostamente era muito parecido a jogar futebol com um tal “Bailão” que era jogador profissional da altura. O meu avô, que foi uma grande figura do distrito nos anos 50, ficou também com o nome, depois o meu pai, que foi profissional durante doze anos, e agora eu.

CR: Na formação do Vitória, foi colega de jogadores como Besugo, Luís Portela, Moisés ou Paulo Regula. Tirando o último, acredita que os outros jogadores que mencionei poderiam ter tido o mesmo sucesso do colega na principal equipa “sadina”?
JB: Podiam claro. Com o Paulo Regula tiveram a paciência que não tiveram com os outros.

CR: Qual é a sua opinião acerca da actualidade do futebol português?
JB: Custa-me ver onzes iniciais de equipas medianas da I Liga com um ou dois portugueses, custa-me ver os plantéis dessas equipas com meia dúzia de portugueses, custa-me ver convocatórias de selecções jovens com muito pouco por onde escolher pois não há falta de qualidade mas sim de quantidade em divisões profissionais. Se calhar vamos deixar de ter futebol português e passamos a ter simplesmente o futebol dos clubes de cá.

CR: Passou dez épocas no Vitória de Setúbal. O Vitória FC é o seu clube de coração?
JB: Sou benfiquista, no entanto passei a ser vitoriano também e sou sócio do Vitória. Não poucas vezes torci pelo Vitória contra o Benfica. É um grande clube e foram muitos anos ali, muitos laços e recordações vêm dali. Era impossível não se ter tornado um clube do meu coração.

CR: É capaz de eleger um "onze" formado por companheiros de equipa? (Actuais ou passados)
JB: É  complicado eleger apenas onze. Mas aqui vai:
Guarda-Redes: José Carlos. Seguro e experiente. Jogámos juntos no GD Fabril, está agora no Barreirense.
Defesa Central: Jojó. Colega no Vitória, Palmelense e nas selecções de Setúbal. Polivalente muito inteligente, joga  no Alcochetense.
Defesa Central: João Meira. Jogámos juntos no Vitória e na Selecção de Setúbal, está no Atlético, é muito forte mentalmente. Chegará à I Liga.
Defesa Central: Tiago Dias. Capitão do GD Alfarim, jogou nas camadas jovens do Benfica e do Vitória. Um talento a quem futebol não deu o devido valor e oportunidade.
Médio: David Martins. Era capitão do GD Fabril e fomos colegas também no Zambujalense, um verdadeiro líder. (Jogador do Barreirense)
Médio: Luís Carlos. Um ambidestro muito lutador. Meu colega no Alfarim, jogou comigo nos Juvenis e nos Juniores do Vitória, merecia uma oportunidade noutro escalão.
Médio: Bruno Cruz. O melhor jogador com quem joguei até hoje. Vi-o fazer coisas inimagináveis, é um médio centro por quem se paga para ver jogar. Fazia uma "perninha" em qualquer equipa da I Liga. (Jogador do GD Fabril)
Médio: André Martins. Tem um pé esquerdo de ouro, jogámos juntos no Vitória, fomos campeões nacionais pela Selecção de Setúbal e fomos à selecção nacional. Jogávamos de olhos fechados. (Jogador do Palmelense) 

Médio: João Nuno. Fortíssimo no último passe e bolas paradas, joga actualmente no Barreirense.
Avançado: Rui Capitão-Mor. Um "matador", jogámos juntos no GD Fabril e na Selecção de Setúbal.
Avançado: Zequinha. Jogámos juntos no Vitória. Um fenómeno a quem ninguém ficava indiferente, uma verdadeira força da natureza. Foi agora emprestado pelo Olhanense ao Fátima.

Ah e tem que haver aqui um treinador: Francisco Silva. Foi meu treinador dois anos nos juvenis e chamou-me a treinos e jogos quando ainda era iniciado. Foi uma pessoa muito importante na minha evolução como jogador e como homem.

O "Conversas Redondas" agradece a Bailão, o tempo despendido para esta entrevista, bem como faz votos para que tudo lhe corra bem, tanto na vida desportiva como na vida pessoal.

Pode ver o trajecto de Bailão, aqui.

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